Materiais Curriculares Educativos

APRESENTAÇÃO

Este Material Curricular Educativo apresenta possibilidades de ensino de mitose e câncer por meio de uma abordagem dialógica que oportunize o debate sobre situações opressivas ligadas, principalmente, ao racismo, ao sexismo e à opressão de classe. Por meio de uma Questão Sociocientífica sobre o caso de Henrietta Lacks é possível debater, ao longo da sequência didática, as seguintes temáticas: mitose e câncer enquanto fenômenos biológicos, fatores ambientais e sociais ligados ao câncer, câncer de colo de útero e HPV, relações desiguais de gênero, o racismo como fenômeno estrutural das desigualdades sociais, condições de classe e acesso à saúde e a conhecimentos, injustiça social e epistêmica. No caso dessa última, no referimos a preconceito, descrédito e negação de conhecimentos produzidos por comunidades e agentes pensantes externos à academia, e que não seguem os valores tradicionais da ciência ocidental moderna. 

A sequência didática conta com uma abordagem explícita de ética, a partir da qual são discutidos valores, narrativas, práticas e implicações políticas e sociais da produção científica e tecnológica. Central na proposta é também o conceito de alterização científica, referindo-se a processos em que um grupo humano – social, étnico-racial, político – produz alteridades, ou seja, categoria de outros, fundamentados em supostas bases científicas. Com base nessas categorias de “outros”, são produzidas e perpetuadas segregação, opressão e privação de benefícios a grupos sociais.  

Além disso, as/os estudantes são solicitadas/os a desenvolver projetos de ação sociopolítica, visando transformações sociais positivas, especificamente, promissores para o combate ao racismo, às desigualdades de gênero e/ou à opressão de classe. Assim, a proposta de ensino é comprometida com a abordagem de conteúdos conceituais de biologia – mitose e câncer – em diálogo com conteúdos conceituais, atitudinais e procedimentais ligados à ética e à política.  

Quem foi Henrietta Lacks? Por que incluir sua história no ensino de biologia?

Henrietta Lacks foi uma mulher negra, nascida na Virgínia, nos Estados Unidos, que teve suas células do colo de útero extraídas sem seu conhecimento e consentimento para pesquisas sobre causa e cura do câncer, na década de 1950. A extração do material biológico ocorreu no contexto do tratamento de um câncer do colo de útero de Henrietta no Hospital Johns Hopkins, único num raio de muitos quilômetros que tratava de pacientes negras/os. Aquela era a época das leis segregacionistas e mesmo neste hospital, que atendia pacientes negra/os, havia segregação, uma vez que os ambientes eram separados em ambientes para pessoas brancas e para “gente de cor”. 

Este caso é relatado pela bióloga e jornalista científica Rebecca Skloot, no livro “A vida imortal de Henrietta Lacks”, o qual resultou de uma intensa investigação, com duração de dez anos de coleta e análise de documentação e obtenção de entrevistas (SKLOOT, 2011), retratada no filme de longa metragem de mesmo título, lançado em 2017. 

Pesquisas com uso de material biológico de mulheres, negras em sua grande maioria, que chegavam ao Johns Hopkins, já aconteciam desde a década do nascimento de Henrietta, em 1920.  Desde então, inúmeras mulheres tiveram suas células utilizadas sem que pudessem ter conhecimento e, portanto, ter a possibilidade de consentir ou não. Todas as células morriam após um tempo em meio de cultura. O mesmo, não ocorreu com as células de Henrietta, sendo consideradas imortais por se dividirem num número ilimitado de vezes, desde que mantidas em condições ideais em laboratório (SKLOOT, 2011). As células de Henrietta contribuíram e contribuem ainda hoje para muitos benefícios médicos e sociais. No entanto, o uso sem consentimento de material biológico, ocorrido no contexto de práticas racistas no precário sistema de saúde pública norte-americana do século XX, levanta um sério debate ético sobre racismo, sexismo e opressão de classe nas ciências biomédicas.

Consideramos a história de Henrietta Lacks promissora para debater as questões éticas supracitadas no contexto do ensino de conteúdos conceituais do currículo de biologia, os quais, em nossa proposta, estão relacionados ao   ensino de mitose e câncer. Tal abordagem responde a uma série de demandas sociais e acadêmicas colocadas   ao ensino de ciências e biologia, atualmente. Podemos citar: uma abordagem informada e contextualizada pela história e filosofia das ciências, a promoção de uma visão crítica das relações ciência, tecnologia, sociedade e ambiente; e a formação  para ação sociopolítica e ativismo social, a partir do exame ético e político das ciências e suas relações com a sociedade; e, ainda, a promoção de uma  educação voltada para a equidade de gênero e para o combate ao racismo. 

Colaboraram no processo de elaboração, aplicação e investigação desse Material Educativo Curricular as/os docentes: Ayane de Souza Paiva, Rosiléia Oliveira de Almeida, Ana Paula Miranda Guimarães e Nei Nunes-Neto.

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Universidade Estadual de Feira de Santana

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