Nossa História

A ideia de desenvolver a plataforma Sarah Baartman surgiu a partir da experiência com a curadoria, montagem e itinerância da exposição Ciência, Raça e Literatura, iniciada em 2013. 

Entre os anos de 2010 e 2012, membros do Grupo Caburé – naquela época Grupo Colaborativo de Pesquisa em Ensino de Ciências (GCPEC-UEFS) – tiveram acesso a estudos sobre a história do racismo científico nos séculos XIX e XX, desenvolvidos por Juan Manuel Sanchéz Arteaga em colaboração com Charbel Niño El-Hani, por meio de participações e colaborações nas investigações realizadas pelo Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia (LEFHBio/UFBA). Arteaga e El-Hani (2012) propuseram princípios de planejamento de propostas pedagógicas que utilizassem o racismo científico como plataforma para a construção de uma visão crítica e equilibrada das relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS).

Em 2012, os docentes Claudia Sepulveda e Marco Barzano decidiram, em colaboração com os referidos colegas da UFBA, recontextualizar didaticamente o tema do racismo científico em uma exposição itinerante, a partir de um trabalho coletivo com estudantes da Licenciatura em Ciências Biológicas da UEFS, com discentes da disciplina de Estágio Supervisionado em Ensino de Biologia e com participantes do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). Desde então, o acervo – textos, objetos, artefatos interativos – da exposição tem sido construído e ampliado por meio de colaboração entre estudantes da graduação e da pós-graduação, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A exposição tem como tema central o desenvolvimento histórico do conceito de raça, e se organiza em torno do argumento de que as hierarquizações baseadas na categoria científica de raça estiveram envolvidas em processos de alterizaçāo, por meio dos quais determinados grupos étnicos, sociais, culturais e/ou políticos promoveram a discriminação de outros grupos humanos. Partindo de um breve histórico do desenvolvimento de teorias racialistas europeias, chega-se ao racismo científico no Brasil, e apresenta-se uma amostra de como a questão racial no Brasil tem sido tratada na literatura.

A partir do processo de itinerância dessa exposição em museus, instituições de ensino superior e escolas da rede pública de ensino do município de Feira de Santana e região circunvizinha, pesquisadores e estudantes envolvidos na curadoria coletiva, docentes da educação básica, visitantes e colaboradores atentaram para o papel que a exposição poderia desempenhar na promoção da educação de relações étnico-raciais, tal como prevista nas Leis 10.639/03 e 11.645/08. Essa reflexão levou a três resultados: o desenvolvimento de novos temas, elementos e artefatos de exposição com um maior foco nessa direção; uma investigação para avaliar mais sistematicamente as potencialidades de contribuição da exposição para promoção de um ensino de Ciências voltado para a educação das relações étnico-raciais; e a proposição de um projeto de investigação e desenvolvimento de materiais curriculares educativos sobre a história do racismo científico que tivessem o potencial de apoiar professores e professoras da área de Ciências da Natureza na promoção de educação das relações étnico-raciais. 

O referido projeto foi submetido a edital universal do CNPq (MCTI/CNPq nº 01/2016), recebendo apoio financeiro a partir de 2017. Desde então, os temas explorados na exposição têm promovido o desenvolvimento de propostas educacionais, sequências didáticas e projetos interdisciplinares voltados à educação das relações étnico-raciais. Algumas dessas propostas têm sido aplicadas em salas de aula por professoras(es) colaboradoras(es) em escolas da rede pública de ensino, institutos federais e universidades públicas do estado da Bahia. Com base nos relatos dessas experiências e de dados gerados em investigações sobre as mesmas, realizadas por alunas(os) do Programa de Pós-graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA/UEFS), foram organizados os materiais curriculares educativos que se encontram disponibilizados nessa plataforma.  

As propostas pedagógicas compartilhadas nessa plataforma tiveram origem na defesa de que a área das Ciências da Natureza não só pode, mas deve assumir a responsabilidade de contribuir para com a educação das relações étnico-raciais, tendo em vista a participação das ciências naturais na construção da categoria raça e nos discursos e práticas de discriminação, segregação e privação de benefícios que têm sido historicamente construídos com base em tal categoria, dando origem ao que tem sido chamado de racismo científico.

 

Porque Sarah Baartman?

A personagem que dá o nome à nossa plataforma foi alvo de racismo científico no século XIX. No contexto do imperialismo inglês, em 1810, Sarah Baartman, uma mulher da etnia KhoiKhoi do sudoeste da África, foi levada para a Europa. Sob a alcunha de Vênus Hotentote, foi exibida em shows de circo e exposições antropológicas (conhecidas como zoológicos humanos), em que aspectos da anatomia de seu corpo, considerados fora do padrão das mulheres europeias, especialmente suas nádegas volumosas, eram ressaltados e animalizados.  A partir de 1815, Sarah passou a ser observada pelos naturalistas do Museu de História Natural de Paris, onde, de maneira desrespeitosa e sem seu consentimento, teve seu corpo meticulosamente e invasivamente medido, despido e desenhado para imagens que aparecem no primeiro volume da História Natural dos mamíferos de autoria de Geoffroy Saint-Hilaire e Georges Cuvier. Em dezembro de 1815, com cerca de 21 anos, Sarah morreu por “uma doença inflamatória e eruptiva”, conforme diagnóstico de Cuvier. Mesmo após sua morte, seu corpo continuou sendo objetificado pela ciência. Cuvier construiu moldes do corpo de Sarah, preservou seu cérebro, a genitália dissecada e o esqueleto, os quais foram exibidos até a década de 1970 no Museu do Homem em Paris. Após anos de reivindicações dos povos KhoiKhoi, a repatriação de seus restos mortais foi conseguida por Nelson Mandela junto ao governo Francês, e, em 2002, o corpo de Sarah foi devolvido para ser cremado, conforme o ritual de seu povo. Sarah Baartman é hoje um ícone de movimentos sociais (como o feminismo negro) e das lutas anticolonialistas, tornando-se heroína nacional da África do Sul.

Na figura acima, que também pode ser vista na abertura da plataforma, buscamos representar essas diferentes facetas do sujeito histórico Sarah Baartman. A imagem foi desenvolvida pela aquarelista Paula Hollanda, a partir das reflexões de nosso grupo sobre o prejuízo que a exibição repetida de imagens negativas e desumanizadoras de Sarah pode representar para a educação das relações étnico-raciais. Portanto, em lugar de apenas reproduzirmos as representações eurocêntricas que os naturalistas do século XIX fizeram de seu corpo, resolvemos problematizá-la e propor novas imagens mais positivas, e, possivelmente, mais próximas do que seu personagem significa para a memória de seu povo e para as lutas anticolonialistas. Em parte, fomos inspiradas(os) na seguinte citação da feminista Anne Fausto Sterling:

 As diferenças corporais de Sarah Baartman foram construídas utilizando os paradigmas sociais e científicos disponíveis naquele tempo. Só podemos saber como os europeus a representaram e enquadraram. Se ela magicamente estivesse viva hoje, os antropólogos e biólogos contemporâneos poderiam representá-la e enquadrá-la diferentemente, mas isso seria, mesmo assim, apenas representação e enquadramento. Uma diferença é que, na atualidade, talvez, um dos inúmeros movimentos de liberação poderia oferecer a ela um contexto para rechaçar as construções da ciência euro-americana. (FAUSTO-STERLING, 1995, p. 41)

A animalização e objetificação do corpo de Sarah pelas ciências biomédicas é um entre outros episódios da história do racismo científico do século XIX e XX, os quais deram origem aos temas que são explorados em nossos Materiais Curriculares Educativos (MCE), de modo a articular objetivos da educação das relações étnico-raciais com conteúdos de ensino de Ciências e Biologia. Nossa busca é promover uma educação anti-opressiva que problematize e combata dinâmicas de opressão em que certos grupos são privilegiados e outros são subalternizados, marginalizados e privados de benefícios. Especificamente, enfocamos as opressões resultantes da intersecção entre raça e gênero, e, por essa razão, resolvemos dar visibilidade à história de Sarah Baartman na nomeação da plataforma. Infelizmente, não há registros do nome original de Sarah no idioma dos KhoiKhoi; assim, decidimos usar na plataforma o nome holandês que consta no seu certificado de batismo. 

DESENVOLVIMENTO

FINANCIAMENTO

APOIO

Universidade Estadual de Feira de Santana

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