Princípios de Planejamento

Ao longo da experiência de desenvolver, aplicar e avaliar as propostas pedagógicas que compõem os materiais curriculares apresentados nessa plataforma, foi possível produzirmos princípios de planejamento. Esses princípios são enunciados com a intenção de orientar o planejamento de intervenções educacionais no que diz respeito à seleção de características, procedimentos e recursos que podem ser providos a essas intervenções, de modo a responder às expectativas de uma educação das relações étnico-raciais positivas nos contextos de ensino de Ciências e Biologia, por meio da história do racismo científico .  (para ter acesso ao que entendemos como educação das relações étnico-raciais positivas, poderá consultar a aba Currículo e Ensino ).

    • Usar o exercício de examinar a história do racismo científico no século XIX para reconhecer o potencial que discursos e práticas das ciências biomédicas apresentam para promover hierarquização, discriminação e segregação de grupos humanos, no momento presente. Quando olhamos para o passado, nos distanciamos de nosso objeto, o que torna mais fácil identificarmos vieses racistas e suas relações com interesses políticos de dominação de grupos humanos. A partir desse exercício, estaremos mais atentos e instrumentalizados para examinar tais valores, ideologias e interesses na prática da ciência contemporânea.
    • Examinar como os discursos sobre raças nas ciências naturais circularam e circulam em debates, instâncias e outras instituições sociais, como na definição de políticas públicas de segurança, saúde e educação, nas mídias e nas redes sociais. É possível fazê-lo, por exemplo, examinando os conhecimentos de genética e evolução nos argumentos sobre critérios aplicáveis aos beneficiários de cotas raciais em exames e concursos públicos. 
    • Empregar as teorias evolucionistas sobre raça e variabilidade humana do século XIX na interpretação de racismos na descrição de mulheres e homens negros em propagandas de produtos de beleza, cosméticos e bebidas, algumas das quais denunciadas no Ministério Público. As razões para usar essa abordagem giram em torno de seu potencial em promover compreensão crítica a respeito da origem de estereótipos, ideologias de inferioridade e processos de negação/afirmação da diversidade, todos eles envolvidos nas relações étnico-raciais.
    • Usar textos de fontes primárias (trechos de escritos de Darwin – capítulos de A origem do homem e a seleção sexual) ou secundárias da história das ciências (textos que analisam o pensamento darwinista), de modo a caracterizar devidamente os contextos históricos em que práticas e discursos racistas em análise foram produzidos. Uma das razões para adotarmos essa prática é o potencial que ela apresenta em desenvolver, entre os estudantes, a capacidade de apreciação crítica das ciências e de suas relações com a tecnologia e com a sociedade, evitando: perspectivas anacrônicas que julgam a produção passada com olhos do presente; visões ingênuas que julgam a ciência como neutra e isenta de valores e interesses; e, de outro modo, visões céticas em relação ao papel que a ciência pode desempenhar na promoção de bem-estar e justiça social. 
    • Equilibrar o exame crítico de discursos racialistas e racistas produzidos pelas/nas ciências (passado e presente) com temas que gerem valorização das pessoas negras e sentimento positivo de pertencimento étnico-racial, trazendo exemplos da contribuição africana à ciência e o protagonismo de homens e mulheres negros(as) em empreendimentos científicos passados e recentes. Ao fazê-lo, é importante também que examinemos processos por meio dos quais conhecimentos e tecnologias produzidos por povos africanos foram apropriados pela ciência ocidental moderna e tiveram sua autoria usurpada e/ou invisibilizada. Além disso, deve-se dar destaque às ações políticas que permitem a maior inserção de negras e negros na produção científica. Como nos alerta Kabemgele Munanga e Nilma Lino Gomes, para a construção de uma identidade negra é importante não apenas problematizar estereótipos negativos, dirigidos à população negra – dando conta da dimensão subjetiva e simbólica –, mas também promover a tomada de consciência da contribuição que esse setor étnico-racial que tem sido excluído prestou historicamente à sociedade que a excluí, tanto no aspecto econômico quanto no cultural.  
    • Abordar a polissemia do conceito de raça, apresentando um exame dos diferentes significados que foram/são utilizados em diferentes campos do conhecimento – internos à Biologia, mas também externos a ela –, em momentos históricos diversos e em grupos sociais distintos. Nesse exame, é importante enfatizar as relações entre ciência, tecnologia e sociedade, analisando o papel que o conceito de raça assume no conhecimento biológico, como também o contexto sócio-histórico em que foi produzido e para quais interesses políticos tem sido criado ou apropriado. Acreditamos que essa abordagem é capaz de promover a visão crítica do uso do conceito de raça que lhe é dado nas relações sociais brasileiras para informar, de forma discriminatória, o destino e o lugar social dos sujeitos, com base em um conjunto de características físicas, como cor da pele e tipo de cabelo. De outro lado, pensamos que é importante reconhecer o significado positivo atribuído ao conceito de raça pelo Movimento Social Negro, ao utilizá-lo com um sentido político e de valorização do legado deixado pelos africanos.
    • Examinar as peculiaridades do racismo na sociedade brasileira e de suas estratégias de manutenção, identificando as diferenças que ele assume em comparação a contextos geopolíticos distintos, a exemplo do contexto norte-americano. É importante examinar o papel que os discursos das ciências biológicas sobre raça cumpriram/cumprem no modo como o racismo se estrutura e se manifesta no Brasil. A título de exemplo, é possível averiguar o papel que teorias evolucionistas sobre a mestiçagem do século XIX desempenharam na ideologia do embranquecimento e na manutenção do tipo de racismo estrutural, ambíguo e velado que permeia as relações étnico-raciais e sociais no Brasil. Ao fazê-lo, estaremos em condições de examinar mais criticamente como o discurso e a prática da ciência contemporânea podem contribuir para a manutenção ou, de outro modo, para o combate ao racismo.  
    • Examinar as intersecções da raça com outras categorias de alterização e identidade, especialmente as de classe, sexo e gênero, ao interpretar os processos de segregação, hierarquização e opressão, em que discursos e práticas do racismo científico estão envolvidos, assim como a resistência e luta dos grupos subalternizados em respostas aos mesmos. O feminismo negro nos tem apontado a importância de reconhecermos que os terrenos sociais, econômicos e políticos são organizados por meio de uma complexa matriz de dominação, em que diferentes eixos de poder se intercruzam, gerando diferentes experiências de opressão. O racismo é um desses eixos, cujo fluxo é muito intenso em nossa sociedade; mas, com ele, intercruzam-se o classismo, o sexismo e a heteronormatividade. Assim, ações sociopolíticas para resistência e combate ao racismo, para levarem ao enfrentamento de opressão e empoderamento de grupos subalternizados, devem levar em conta essa complexidade da matriz de dominação. 
    • Exame crítico da maneira como a dinâmica de opressão se estrutura por meio da racialização de certos grupos humanos, bem como do lugar em que cada um dos sujeitos que participam da ação educacional (estudantes e professora) se assentam nela – se são alvo de opressão ou se são beneficiários do privilégio de que gozam certos fenótipos, identidades e modos de ser considerados padrão. Um caminho, para tanto, é apresentar os índices de desigualdade étnico-sociais – acesso à educação, salários, cargos públicos de liderança vs morte por armas de fogo ou violência obstétrica, dentre outros. Podem ser usadas, também, dinâmicas que estimulem o reconhecimento de privilégios e/ou do lugar racial/social em que as pessoas se encontram, explorando as barreiras raciais (ver jogo do privilégio branco criado pelo Instituto Identidades do Brasil, por exemplo). Para construir relações étnico-raciais positivas, não é suficiente promover o conhecimento e a valorização dos grupos étnico-raciais (no nosso caso, negros e indígenas) historicamente estereotipados, invisibilizados e subalternizados; é preciso problematizar a visão de supremacia e universalização de grupos não racializados (no nosso caso, os brancos) e promover uma consciência crítica dos privilégios de que tal grupo é beneficiário, além de uma predisposição em abrir mão dos mesmos.  
    • Assumir uma postura decolonial a respeito do papel de africanos e afrodescendentes na formação do Brasil e em seu patrimônio sociocultural, incluindo ciência e tecnologia, promovendo mudanças nos vocabulários usados para se referir aos negros e ao processo de escravização (por exemplo: escravo para escravizado; escravidão para imigração forçada) e nas narrativas sobre a história da participação dos negros no desenvolvimento científico e cultural do Brasil (desmistificando o enfoque da força braçal e perspectiva folclorista para tecnologias africanas e capital cultural). A opressão gerada pelo racismo opera, entre outras estratégias, por meio da enunciação repetitiva e cíclica de estereótipos. Desse modo, modificar linguagem e recontar narrativas que rompam com esse ciclo são importantes operações de enfrentamento ao racismo. 
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